Você Conhece Maringá

Você Conhece Maringá? A ferrovia que ajudou a construir a cidade — e a terra dos trilhos que financiou o Novo Centro

MARINGÁ — A história da ferrovia em Maringá começou a influenciar a cidade antes mesmo de transportar passageiros, café, madeira e mercadorias. Os trilhos já ajudavam a decidir onde o município cresceria. Décadas mais tarde, quando estação, pátio e instalações ferroviárias deixaram o centro, ocorreu uma inversão histórica: a própria terra antes ocupada pela ferrovia passou a participar do financiamento da cidade que surgia em seu lugar.

Essa transformação atravessa mais de meio século. Além disso, conecta o plano urbano original de Maringá, a chegada do trem em 1954, o Projeto Ágora de Oscar Niemeyer, a demolição da estação, a criação da Urbamar, empréstimos bancários, pagamentos realizados com terrenos e a formação do atual Novo Centro.

Documentos históricos, legislação municipal, decisões judiciais, registros do Tribunal de Contas do Estado do Paraná (TCE-PR), pesquisas acadêmicas e balanços da antiga Urbamar revelam, portanto, uma história muito maior do que a simples retirada de uma linha ferroviária.

A ferrovia primeiro ajudou a desenhar Maringá. Depois, sua retirada ajudou a redesenhar a cidade.

A estação existia no mapa antes de existir na cidade

Quando o engenheiro e urbanista Jorge de Macedo Vieira elaborou o projeto de Maringá, a ferrovia não apareceu como elemento secundário.

Estudos sobre o plano original mostram dois grandes eixos estruturantes: o ferroviário, seguindo aproximadamente o sentido leste-oeste, e outro eixo transversal, que organizava a área central.

Já na década de 1940, o planejamento indicava a localização da futura estação.

Esse desenho ajuda a explicar uma mudança fundamental na história da cidade. O núcleo comercial que se desenvolvia na região hoje conhecida como Maringá Velho perdeu progressivamente centralidade para a nova área planejada mais a leste.

A estação fazia parte dessa lógica. Por isso, antes mesmo de o trem oficial chegar, a expectativa da ferrovia já influenciava o valor, a ocupação e a organização do solo urbano.

Pesquisas acadêmicas sobre a presença ferroviária em Maringá chegam a conclusão semelhante: a demarcação da estação antes da consolidação da cidade demonstra a relação estrutural entre ferrovia e planejamento urbano.

31 de janeiro de 1954: o trem chega — mas a estação ainda não estava pronta

A data entrou para a história: 31 de janeiro de 1954.

Naquele domingo, o trem oficial de passageiros que inauguraria o serviço ferroviário chegou a Maringá puxado pela locomotiva nº 608, que décadas depois ficaria conhecida por gerações de maringaenses como a Maria Fumaça do Parque do Ingá.

Chegada do trem à Estação Ferroviária de Maringá em 1954
Multidão acompanha a chegada do trem oficial de passageiros a Maringá, em 31 de janeiro de 1954. A inauguração marcou a entrada em funcionamento do serviço ferroviário de passageiros na cidade. Foto: acervo histórico.

A composição saiu de Apucarana por volta das 9h e chegou a Maringá pouco depois do meio-dia. O novo trecho tinha aproximadamente 64 quilômetros.

José Mariano conduziu a locomotiva, acompanhado pelo foguista José Glade. Já Américo Lopes ficou responsável pela estação.

Relatos históricos apontam que mais de quatro mil pessoas acompanharam a chegada em um dia chuvoso.

Na comitiva estavam autoridades e representantes da administração ferroviária. Depois dos discursos realizados diante da estação, participantes seguiram para um almoço no Restaurante Lord Lovat.

Entretanto, havia uma particularidade extraordinária:

a estação ainda não estava completamente concluída.

Construção da Estação Ferroviária de Maringá na década de 1950
Estrutura da Estação Ferroviária de Maringá ainda em construção no período da chegada oficial do trem. A inauguração do serviço ocorreu antes da conclusão completa do prédio. Foto: acervo histórico.

Fotografias históricas confirmam visualmente que a estrutura ainda estava em obras.

Naquele momento, empresários e produtores locais pressionavam pela entrada em funcionamento da ferrovia devido aos custos e às dificuldades logísticas. Antes da ligação ferroviária de Maringá, mercadorias precisavam seguir por outros meios até Apucarana e, somente depois, entrar na rede ferroviária com destino a diferentes regiões — inclusive ao Porto de Santos.

Assim, Maringá inaugurou o serviço ferroviário antes de terminar completamente sua estação.

Foi realmente o primeiro trem de Maringá?

Aqui existe uma diferença histórica importante.

A locomotiva 608 está corretamente associada ao primeiro trem oficial de passageiros que inaugurou a estação e o novo trecho em 1954.

Isso, porém, não significa necessariamente que tenha sido a primeira locomotiva a alcançar o território maringaense.

Registros históricos indicam que outras locomotivas chegaram anteriormente durante os trabalhos de implantação e prolongamento da linha.

Por isso, a descrição historicamente mais segura é:

em 31 de janeiro de 1954, a locomotiva 608 puxou o primeiro trem oficial de passageiros que inaugurou a Estação Ferroviária de Maringá.

Locomotiva 608 ligada à inauguração ferroviária de Maringá em 1954
Locomotiva nº 608, que ficou diretamente ligada à inauguração oficial do serviço ferroviário de passageiros de Maringá em 1954 e posteriormente se tornaria a Maria Fumaça preservada no Parque do Ingá. Foto: acervo histórico.

O café viajava nos trilhos — mas não apenas ele

A ferrovia conectou Maringá ao grande circuito econômico que ligava o Norte do Paraná ao restante do país.

Café, madeira e outros produtos agrícolas passaram pelos trilhos. Ao mesmo tempo, mercadorias chegavam e pessoas viajavam.

Famílias inteiras utilizaram o transporte ferroviário durante o processo de crescimento da região.

Consequentemente, a ferrovia não funcionava apenas como infraestrutura. Ela representava conexão econômica, mobilidade e parte da própria expansão urbana.

Maringá teve duas estações

A construção inaugurada em 1954 não foi a única estação ferroviária existente no centro.

No final da década de 1960, aquela primeira estrutura deu lugar a outra.

Entre aproximadamente 1969 e 1970 surgiu uma segunda estação, com arquitetura mais funcional e estrutura em concreto armado.

Segunda Estação Ferroviária de Maringá no início dos anos 1970
Segunda estrutura da Estação Ferroviária de Maringá, provavelmente no início dos anos 1970. O prédio de concreto armado substituiu a estação original inaugurada em 1954. Foto: Laércio Nickel Ferreira Lopes / Acervo Família Ferreira Lopes / Acervo Maringá Histórica.

Essa é a estação que muitos maringaenses ainda guardam na memória e que aparece em grande parte das fotografias das últimas décadas da ferrovia no centro.

Entretanto, havia muito mais do que uma plataforma naquele espaço.

O complexo reunia pátio de manobras, armazéns, estruturas operacionais e uma colônia ferroviária.

Registros históricos apontam cerca de 50 casas destinadas às famílias de trabalhadores ferroviários, distribuídas ao longo da linha entre as avenidas Tamandaré e Paraná.

Na prática, formava-se uma pequena cidade ferroviária dentro da cidade.

Os passageiros desaparecem antes dos trilhos

Durante muitos anos, diferentes publicações locais apontaram 1976 como o encerramento do transporte ferroviário de passageiros.

A investigação desta reportagem encontrou documentação que exige uma correção.

Registros ferroviários, estudos acadêmicos e documentação do Congresso Nacional indicam que o serviço regular de passageiros entre Ourinhos e Maringá permaneceu até março de 1981.

Fontes históricas apontam os dias 10 e 11 de março para a última circulação e para a efetivação da suspensão.

Assim, a formulação historicamente mais segura é:

o serviço ferroviário regular de passageiros para Maringá terminou em março de 1981.

Os trilhos, entretanto, permaneceriam por mais alguns anos no centro.

A ferrovia começa a ser vista como obstáculo urbano

Com o crescimento de Maringá, aquilo que havia ajudado a estruturar a cidade passou também a representar uma barreira.

Os trilhos cortavam a região central, interferiam na circulação e ocupavam uma extensa faixa de terreno valorizado.

Por isso, as discussões sobre a retirada do complexo ferroviário ganharam força durante a década de 1970 e avançaram nas administrações seguintes.

O desafio, entretanto, era gigantesco.

Não bastava retirar os trilhos. O Município precisava transferir operações ferroviárias, construir novas estruturas, liberar terrenos e decidir o futuro de uma enorme faixa que atravessava o coração de Maringá.

Nasce a Urbamar

Em 1985, a Prefeitura criou a Urbanização de Maringá S/A — Urbamar.

A Lei Municipal nº 1.934/1985 relacionava diretamente a empresa à operação necessária para viabilizar a retirada e a transferência do complexo ferroviário.

Além disso, a legislação permitia a assinatura de protocolos com a Rede Ferroviária Federal.

Em outubro daquele ano, Município, Urbamar e RFFSA firmaram um protocolo de intenções.

A lógica era complexa: Maringá precisaria construir estruturas ferroviárias equivalentes em outra área para liberar o patrimônio ocupado pela ferrovia no centro.

Começava, assim, uma das maiores operações urbanísticas e financeiras da história municipal.

Oscar Niemeyer entra na história de Maringá

Em 1986, o escritório de Oscar Niemeyer entrou nas discussões para desenvolver uma proposta para a área.

O projeto apresentado em 1987 recebeu o nome de Projeto Ágora.

A Fundação Oscar Niemeyer registra oficialmente o trabalho como projeto de revitalização urbanística da área ferroviária de Maringá.

Projeto Ágora de Oscar Niemeyer para a área ferroviária de Maringá em 1987
Projeto Ágora, elaborado pelo escritório de Oscar Niemeyer em 1987 para a antiga área ferroviária de Maringá. A proposta previa uma profunda reorganização urbana da região central. Imagem: Fundação Oscar Niemeyer.

A proposta ia muito além de um simples loteamento do antigo pátio.

O desenho previa grandes blocos urbanos, áreas residenciais, espaços de trabalho e lazer, praça, biblioteca, anfiteatro aberto, espelhos d’água, áreas verdes, estacionamento e equipamentos públicos.

Além disso, o projeto previa o rebaixamento da ferrovia.

Tratava-se, portanto, de uma tentativa de reconstruir profundamente o centro da cidade.

Niemeyer pretendia preservar a antiga estação?

Durante anos, circulou uma versão segundo a qual o projeto original preservaria a estação ferroviária.

Entretanto, pesquisas acadêmicas que analisaram os desenhos do Projeto Ágora apontam outra direção.

Segundo esses estudos, não havia intenção de preservar a antiga estação ferroviária. A proposta transformava profundamente aquela área.

Uma das possíveis origens da confusão está em discussões sobre a preservação da antiga rodoviária em versões e momentos diferentes do planejamento.

Portanto, não é correto afirmar, sem ressalvas, que Niemeyer planejava manter a estação.

O Projeto Ágora não virou exatamente o Novo Centro que conhecemos

Esse é outro ponto fundamental.

O atual Novo Centro não pode ser apresentado simplesmente como uma obra de Oscar Niemeyer executada anos depois.

Ao longo do tempo, o Projeto Ágora passou por alterações, novas versões e mudanças profundas.

Estudos acadêmicos indicam que as propostas originais acabaram engavetadas ou descaracterizadas. Posteriormente, a área recebeu um modelo mais convencional de parcelamento, comercialização e ocupação imobiliária.

A ideia de Niemeyer continua importante para compreender o início da transformação. Contudo, o Novo Centro construído posteriormente resulta de muitas outras decisões políticas, urbanísticas e econômicas.

1991: a velha estação desaparece

O ano de 1991 representa uma grande ruptura física.

Antigo pátio ferroviário de Maringá antes da implantação do Novo Centro
Antigo pátio ferroviário de Maringá em seus últimos anos de funcionamento no centro da cidade. Trilhos, locomotiva e estruturas operacionais ocupavam a área que passaria por profunda transformação com a implantação do Novo Centro. Foto: acervo histórico.

Naquele período, estação, casas ferroviárias e outras estruturas começaram a desaparecer para liberar a área central.

Em 3 de agosto de 1991, Maringá inaugurou uma nova estação ferroviária na região da Vila Montanha, fora do antigo centro.

A cerimônia contou com a presença do então presidente Fernando Collor e do prefeito Ricardo Barros.

Enquanto a operação ferroviária mudava de endereço, o enorme terreno central começava outra fase de sua história.

O Novo Centro nasce oficialmente

Em dezembro de 1991, a Lei Municipal nº 3.051 aprovou o plano diretor denominado Projeto Ágora.

Dois anos depois, outra legislação marcou uma mudança decisiva.

A Lei Complementar nº 23/1993 aprovou o Plano Diretor da área denominada Novo Centro de Maringá.

A legislação permitia que a Urbamar negociasse terrenos e utilizasse o patrimônio imobiliário para financiar as obras necessárias.

Dessa forma, começava um mecanismo que se tornaria central para entender o que ocorreu nas décadas seguintes.

A terra dos trilhos vira instrumento financeiro

É neste ponto que a história ferroviária de Maringá ganha uma dimensão pouco conhecida.

A área liberada pela ferrovia não serviu apenas para abrir ruas e receber edifícios.

A terra passou a financiar a própria transformação urbana.

A legislação autorizou diferentes mecanismos envolvendo os terrenos. Assim, eles poderiam ser vendidos, entregues em pagamento ou utilizados em contratos e operações financeiras.

Mais importante: os documentos demonstram que esses mecanismos realmente saíram do papel.

Em 1992, começa a tentativa de comercialização

Documentos da Urbamar recuperados por pesquisas acadêmicas registram uma sequência de editais durante 1992.

Inicialmente, tentou-se comercializar direitos ou projeções de construção.

O modelo, porém, encontrou dificuldade para atrair investidores.

Posteriormente, a estratégia migrou para algo muito mais conhecido pelo mercado:

a venda da terra física.

Reportagens daquele período já apresentavam o Novo Centro como empreendimento “autofinanciável”.

Com isso, parte dos terrenos liberados começou a entrar no mercado.

A mudança era significativa. Aos poucos, a arquitetura idealizada para o Ágora perdia espaço para uma lógica imobiliária mais convencional.

Terrenos também pagaram empreiteira

Em 1994, uma concorrência pública levou ao contrato posteriormente firmado entre a Urbamar e a Cesbe S/A Engenharia e Empreendimentos.

O contrato nº 001/1995 tratava das obras de rebaixamento e adequação da linha ferroviária.

O valor chegava a:

R$ 21.707.026,24.

Já o prazo previsto era de:

18 meses.

A documentação analisada por pesquisadores da Universidade de São Paulo indica que aproximadamente 57% do valor do contrato seria pago por meio de terrenos.

A área destinada à operação somava aproximadamente:

41.527,86 m².

Portanto, a empreiteira responsável por parte das obras recebeu terras como forma de pagamento.

O Banestado entra no tabuleiro

Ao mesmo tempo, a Urbamar contratou sucessivos financiamentos bancários.

Documentos do acervo da empresa registram várias operações com o Banco do Estado do Paraná.

Entre elas aparecem contratos firmados em 1996, 1997, 1998 e 1999.

Um dos empréstimos mais relevantes alcançou R$ 5 milhões em agosto de 1997.

Depois vieram renegociações.

Em novembro de 1998, os registros mostram uma operação de aproximadamente R$ 5,5 milhões. Já em julho de 1999, outra renegociação aparece com aproximadamente:

R$ 4,296 milhões.

Mais uma vez, a terra entra na história dessas operações.

O TCE confirma: terreno do Novo Centro foi entregue ao Banestado

Aqui aparece um dos achados mais importantes desta investigação.

Ao analisar as contas da Urbamar relativas a 1999, o Tribunal de Contas do Estado do Paraná registrou uma operação envolvendo a:

data 03 da quadra 51-A/4.

A área tinha:

9.437,39 m².

O destino foi:

Banestado.

Segundo o TCE, a operação provocou impacto contábil negativo de aproximadamente:

R$ 1.543.312,03.

Além disso, o Tribunal registrou mais de R$ 15 milhões em terrenos envolvidos em dações em pagamento, dos quais aproximadamente R$ 12,5 milhões já haviam sido liberados conforme a execução dos serviços.

Assim, uma interpretação histórica ganha comprovação documental:

a terra liberada pela ferrovia efetivamente funcionou como instrumento de pagamento e financiamento das obras do Novo Centro.

Uma quadra, destinos completamente diferentes

A quadra 51-A/4 ajuda a visualizar essa transformação.

Partes diferentes da mesma antiga área ferroviária seguiram caminhos distintos.

Os lotes 1 e 2 passaram pelo Banestado. Posteriormente, uma empresa privada os adquiriu em leilão promovido pelo banco, conforme decisão do Tribunal de Justiça do Paraná.

A área unificada tinha 6.922,74 m², sob a matrícula nº 70.112.

Ali começou a implantação do empreendimento New Tower Plaza Empresarial.

O lote 3, por outro lado, apresenta uma trajetória diferente.

Trata-se justamente da área de 9.437,39 m² que o TCE registra como entregue ao Banestado em 1999.

Anos depois, documentos municipais mostram o lote 3 da quadra 51-A/4 integrado ao conjunto de terrenos destinado à implantação do Terminal Intermodal, juntamente com os lotes 4 e 5.

Documentação posterior identifica os terrenos 03 e 04/05 da mesma quadra sob a matrícula nº 140.923.

Entretanto, existe uma lacuna documental importante.

A reportagem não localizou em fonte pública o registro imobiliário capaz de demonstrar exatamente como o lote 3 deixou a vinculação com o Banestado e passou a integrar a área utilizada pelo poder público.

Por isso, não é possível afirmar qual instrumento jurídico produziu essa transferência intermediária.

O que a documentação permite afirmar com segurança é:

o lote 3 entregue ao Banestado em 1999 reaparece posteriormente integrado à área destinada ao Terminal Intermodal.

O terreno da antiga estação também virou garantia

Outra descoberta reforça esse modelo.

Em 2007, o Governo do Paraná autorizou a substituição de uma garantia vinculada a um empréstimo da Urbamar.

A garantia era justamente:

o terreno da antiga estação ferroviária.

A Urbamar havia contratado o financiamento com o Banestado em 1996.

Depois da privatização do banco, a Agência de Fomento do Paraná assumiu a gestão de parte daquela carteira de ativos.

Em 2007, o governo autorizou a liberação do terreno mediante substituição da garantia.

Segundo informação divulgada na época, a valorização havia feito o imóvel alcançar valor muito superior ao montante da dívida.

Surge, portanto, uma ironia histórica:

o lugar onde durante décadas funcionou a estação ferroviária continuava participando financeiramente da transformação de Maringá mesmo depois que a própria estação havia desaparecido.

BNDES, Banestado e outra dívida do Novo Centro

A documentação indica ainda uma operação de R$ 4 milhões contratada em 1996, com recursos do BNDES intermediados pelo Banestado para obras do Novo Centro.

No mesmo ano, documentos do acervo da Urbamar registram o contrato nº 1547-4, também de R$ 4 milhões.

A coincidência de data e valor é muito forte.

Entretanto, a reportagem não localizou o instrumento original que identifique expressamente o contrato 1547-4 como o mesmo financiamento BNDES citado nas outras fontes.

Por isso, a identidade entre as duas operações permanece como forte indicação documental, e não como conclusão definitiva.

Em 2002, uma dívida de R$ 5 milhões vai parar na Justiça

Outra operação financeira chegou ao Judiciário.

Em outubro de 2002, a Prefeitura anunciou que pretendia suspender judicialmente parcelas de aproximadamente R$ 130 mil relacionadas a uma dívida da Urbamar.

No mês seguinte, o Município obteve uma liminar.

Segundo informações divulgadas na época, o financiamento havia sido contratado em 1997, no valor original de R$ 5 milhões, para as obras do Novo Centro.

A Prefeitura afirmava já ter desembolsado aproximadamente:

R$ 9,6 milhões.

Mesmo assim, enfrentava uma cobrança estimada em:

R$ 2,8 milhões.

Além disso, o Município questionava valores que considerava pagos além do devido.

A descrição apresenta forte correspondência com o financiamento de R$ 5 milhões registrado nos documentos da Urbamar em agosto de 1997 e com suas posteriores renegociações.

Entretanto, a investigação não conseguiu localizar o processo judicial original nem sua decisão definitiva.

Assim, também neste ponto é necessário separar evidência documental de inferência.

Uma dívida de R$ 1,965 milhão atravessou décadas

Os balanços finais da Urbamar revelam outro dado intrigante.

Em 2013, o passivo não circulante da empresa registrava:

Financiamento – ECC: R$ 1.965.290,13.

No ano seguinte, o valor permanecia exatamente igual:

R$ 1.965.290,13.

O balancete detalhado identifica a conta como:

Banco do Estado do Paraná S/A – ECC.

Posteriormente, com a liquidação e extinção da Urbamar, o Município incorporou a obrigação à sua contabilidade.

Documentos municipais passaram a apresentar a descrição:

BANESTADO FDU/BNDES – URBAMAR.

Ainda assim, o valor continuou em:

R$ 1.965.290,13.

Relatórios produzidos nos anos seguintes voltaram a apresentar exatamente o mesmo montante.

Em documentação de 2020, por exemplo, a Prefeitura identifica a obrigação como:

“1999 — Dívida da Extinta URBAMAR”.

A reportagem encontrou fortes indícios de relação entre esse passivo e antigas operações financeiras do Novo Centro.

Entretanto, não encontrou documentação suficiente para afirmar qual contrato originou definitivamente os R$ 1.965.290,13 nem por que o valor permaneceu contabilmente sem alteração durante tantos anos.

A reportagem preserva essa lacuna de forma transparente.

A locomotiva 608 teve um destino completamente diferente

Enquanto a estação desapareceu, a locomotiva que simbolizou sua inauguração sobreviveu.

A nº 608 é uma locomotiva Baldwin, configuração Mikado 2-8-2, fabricada em 1941.

Em 26 de dezembro de 1972, a locomotiva retornou de Mafra, em Santa Catarina, após solicitação do então prefeito Adriano José Valente.

Pouco depois começou outra operação incomum: levar uma locomotiva a vapor do pátio ferroviário até o Parque do Ingá.

Transporte da locomotiva 608 para o Parque do Ingá em Maringá
Operação de transporte da locomotiva 608 até o Parque do Ingá, na virada de 1972 para 1973. Equipes instalaram trilhos provisórios para deslocar a Maria Fumaça pela cidade até seu novo endereço. Foto: acervo histórico.

A operação exigiu trilhos temporários e trabalho especializado. Assim, a mesma locomotiva ligada à inauguração ferroviária de 1954 começava uma segunda existência: deixava de ser equipamento operacional para se transformar em patrimônio histórico.

Em 1984, Maringá inaugurou ao redor dela uma estrutura de proteção conhecida como Estação Ferroviária dos Pioneiros.

Décadas depois, a locomotiva passou por restauração e recebeu proteção patrimonial municipal.

Transporte da locomotiva 608 para o Parque do Ingá em Maringá
Operação de transporte da locomotiva 608 até o Parque do Ingá, na virada de 1972 para 1973. Equipes instalaram trilhos provisórios para deslocar a Maria Fumaça pela cidade até seu novo endereço. Foto: acervo histórico.

Em 2025 surgiu a proposta de tirar a 608 do Parque do Ingá

A história poderia ter ganhado outro capítulo.

Em junho de 2025, o vereador Angelo Salgueiro apresentou o Requerimento nº 1.234/2025 questionando a Prefeitura sobre a possibilidade de transferir a locomotiva do Parque do Ingá para a Travessa Jorge Amado.

A escolha tinha forte simbolismo.

A Travessa Jorge Amado ocupa parte da região ligada ao antigo pátio ferroviário. Dessa forma, a mudança representaria, de certa maneira, um retorno da locomotiva ao território dos trilhos.

A investigação não encontrou resposta formal do Executivo determinando a transferência.

Posteriormente, os acontecimentos apontaram em outra direção.

Em 2026, a Prefeitura voltou a investir na Maria Fumaça

Em 29 de maio de 2026, o Município inaugurou no Parque do Ingá o Espaço de Integração e Valorização da Maria Fumaça — Locomotiva nº 608.

A intervenção criou área de convivência e gastronomia próxima ao patrimônio histórico, com food trucks, iluminação, bancos e outras adequações.

Na prática, os investimentos realizados em 2026 reforçaram a permanência e a valorização da locomotiva no Parque do Ingá.

A estação desapareceu.

A 608 permaneceu.

Da antiga estação ao Terminal Intermodal

Talvez nenhum lugar resuma melhor essa transformação do que a região onde hoje está o Terminal Intermodal.

Ali passaram trilhos e funcionou a estação. Além disso, o local abrigou um amplo complexo ferroviário.

Depois vieram demolições, rebaixamento da ferrovia, abertura de ruas, edifícios, comercialização de terrenos e novas estruturas públicas.

Décadas mais tarde, parte da mesma quadra que aparece nos documentos financeiros da Urbamar e do Banestado integra novamente uma grande infraestrutura de transporte.

O modal mudou e a cidade se transformou. Entretanto, o território continua cumprindo uma função de conexão.

O que a investigação revelou

A história da ferrovia em Maringá não terminou quando o último passageiro desembarcou.

Tampouco terminou quando a estação desapareceu.

Ela continuou na propriedade da terra, nos contratos, nas leis, nas dívidas, nos edifícios, nas avenidas e no Terminal Intermodal.

Além disso, permanece visível no patrimônio histórico representado pela locomotiva 608.

Os documentos mostram que terrenos da antiga área ferroviária se transformaram em ativos utilizados para financiar a própria reurbanização.

Parte deles chegou ao mercado. Outros imóveis entraram em pagamentos, operações bancárias e garantias financeiras.

Em determinados casos, áreas envolvidas nessas operações aparecem posteriormente novamente ligadas à infraestrutura pública.

Por isso, a história do Novo Centro não pode ser contada apenas como a substituição dos trilhos por prédios.

Ela também revela como Maringá transformou terra ferroviária em capital urbano.

A ferrovia desenhou Maringá duas vezes

Na primeira vez, ajudou a determinar onde a cidade cresceria.

A localização planejada da estação deslocou centralidade, atraiu comércio e conectou Maringá ao circuito econômico nacional.

Na segunda, entretanto, a ferrovia redesenhou a cidade justamente ao sair dela.

Quando estação, pátio e trilhos deixaram o centro, a enorme faixa de terra liberada se tornou uma das peças centrais de uma transformação urbana que atravessou administrações, projetos, financiamentos e décadas.

O resultado está diante dos olhos de quem atravessa hoje o Novo Centro.

Poucos percebem que, sob os edifícios, avenidas e estruturas atuais, existe uma segunda história.

A história de uma cidade que nasceu olhando para os trilhos — e que, décadas depois, utilizou a própria terra da ferrovia para construir o que viria depois.

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Transparência da apuração

Esta reportagem nasceu do cruzamento de legislação municipal, documentos e decisões do Tribunal de Contas do Estado do Paraná, decisões judiciais, registros históricos, pesquisas acadêmicas, documentos da antiga Urbamar, arquivos de imprensa e informações institucionais.

Em dois pontos, porém, a documentação pública localizada não permitiu conclusão definitiva.

Lote 3 da quadra 51-A/4: o TCE registra a entrega da área ao Banestado em 1999, enquanto documentos posteriores mostram o lote integrado à área utilizada pelo Terminal Intermodal. Entretanto, a reportagem não localizou o ato registral intermediário capaz de demonstrar exatamente como ocorreu essa transferência patrimonial.

Passivo de R$ 1.965.290,13: o valor aparece durante anos nos balanços da Urbamar e, posteriormente, na contabilidade municipal. Ainda assim, a investigação não encontrou documento suficiente para atribuí-lo definitivamente a um dos contratos bancários específicos analisados.

Por esse motivo, a reportagem apresenta essas duas questões com as respectivas ressalvas e não preenche as lacunas documentais por inferência.

Fontes principais da investigação

Tribunal de Contas do Estado do Paraná (TCE-PR) — prestação de contas da Urbamar, decisões e documentação sobre operações envolvendo terrenos, Banestado e situação patrimonial da empresa.

Câmara Municipal de Maringá / SAPL — legislação do Projeto Ágora e do Novo Centro, criação e funcionamento da Urbamar, documentos financeiros e registros relativos ao Terminal Intermodal.

Fundação Oscar Niemeyer — documentação do Projeto Ágora de Maringá.

Universidade de São Paulo (USP) — pesquisa acadêmica baseada no acervo da Urbamar e da Prefeitura, utilizada para reconstruir contratos, operações financeiras, parcelamento e transformação do Novo Centro.

Universidade Estadual de Maringá (UEM) e outras pesquisas acadêmicas — estudos sobre planejamento urbano, história local e transformação da antiga área ferroviária.

Maringá Histórica / Paraná Histórica — fotografias, documentos e registros sobre a estação, a locomotiva 608, o complexo ferroviário e diferentes etapas da transformação urbana.

Câmara dos Deputados — documentação histórica utilizada para conferir o encerramento do serviço ferroviário de passageiros em 1981.

Arquivo de imprensa — reportagens contemporâneas às obras do Novo Centro, financiamentos, operações imobiliárias e disputas judiciais.

Documentação municipal e estadual de patrimônio histórico — registros relativos à preservação da locomotiva nº 608.

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