Saúde

Setembro Verde começa em Maringá: entenda como funciona a doação de órgãos e por que avisar a família é essencial

HUM-UEM e Câmara iniciaram ações de conscientização; Paraná mantém uma das menores taxas de recusa familiar do país, enquanto milhares de pacientes aguardam transplantes

MARINGÁ — A doação de órgãos em Maringá ganhou destaque com o início do Setembro Verde no Hospital Universitário da Universidade Estadual de Maringá (HUM-UEM) e na Câmara Municipal. Mais do que incentivar a doação de órgãos e tecidos, porém, a campanha reforça uma decisão que deve ocorrer antes de uma emergência: conversar com a família sobre o desejo de ser doador. No Brasil, mesmo quando uma pessoa manifesta essa vontade em vida, a doação após a morte depende da autorização familiar.

Por isso, a conscientização ganha importância diante do número de pessoas que aguardam transplantes. Dados referentes a 2025 citados pela Universidade Estadual de Maringá (UEM) mostram que 73.877 pessoas aguardavam um transplante no Brasil. Desse total, 38.925 esperavam por um rim e 32.639 por uma córnea.

No Paraná, por sua vez, 4.421 pacientes aguardavam transplantes. Entre eles, 2.093 estavam na fila por um rim e 2.126 esperavam por uma córnea.

Ao mesmo tempo, o Estado apresenta indicadores de destaque nacional. Em 2025, o Paraná alcançou 38,9 doadores efetivos por milhão de habitantes, segundo dados do Registro Brasileiro de Transplantes divulgados pela Secretaria de Estado da Saúde. O índice ficou atrás apenas de Santa Catarina.

Além disso, o Paraná terminou 2025 com 33% de recusa familiar, enquanto a média brasileira chegou a 45%.

Em abril de 2026, outro levantamento divulgado pelo Estado apontou índice paranaense de 30%, novamente entre os menores do Brasil.

Doação de órgãos em Maringá mobiliza o Hospital Universitário

No HUM, a Equipe Hospitalar de Doação de Órgãos para Transplantes (e-DOT) iniciou nesta terça-feira (1º) a campanha “Cultive a Vida! Doe órgãos!”.

Neste ano, a programação chama atenção especialmente para a doação de rins. Segundo a UEM, o rim representa 53% dos transplantes realizados no Brasil considerados pela campanha.

Entre 1º e 10 de setembro, profissionais da e-DOT percorrerão diferentes setores do Hospital Universitário para conversar com profissionais de saúde, estudantes e docentes.

Além disso, a programação prevê o encontro “Con-VIDA — Café com Propósito”, voltado ao acolhimento, diálogo e cuidado durante o processo de doação.

O HUM também promoverá uma palestra sobre as novas diretrizes relacionadas à doação de órgãos e tecidos em situações de parada cardiorrespiratória e morte encefálica.

Por fim, nos dias 29 e 30 de setembro, a programação terá a atividade “Desmistificando o processo de doação de órgãos e tecidos para transplantes”.

A campanha completa do HUM ocorre de 1º a 30 de setembro.

Paraná mantém baixa recusa familiar

A autorização dos familiares continua sendo uma das etapas decisivas para transformar um potencial doador em doador efetivo.

Em 2024, o Paraná registrou 28% de recusa familiar, contra 46% na média brasileira.

Posteriormente, o resultado consolidado de 2025 apontou 33% no Paraná e 45% no Brasil.

Já em abril de 2026, a Secretaria de Estado da Saúde do Paraná informou que o Estado apresentava 30% de recusa, empatado com Santa Catarina na menor taxa do país. A média nacional permanecia em 45%.

Segundo a Secretaria, a qualificação das equipes responsáveis pela entrevista familiar e o acolhimento durante esse momento ajudam a explicar o desempenho paranaense.

Dessa forma, o trabalho não começa apenas quando chega o momento de pedir autorização. Ele envolve preparação das equipes, comunicação e acompanhamento dos familiares durante o processo hospitalar.

Maringá integra a estrutura estadual de procura de órgãos

O papel de Maringá vai além das atividades realizadas dentro do Hospital Universitário.

O Sistema Estadual de Transplantes mantém quatro Organizações de Procura de Órgãos (OPOs) no Paraná. Elas ficam em Curitiba, Londrina, Cascavel e Maringá.

As OPOs participam da identificação de potenciais doadores e acompanham diferentes etapas do processo junto aos hospitais.

Além disso, a estrutura paranaense reúne 70 hospitais notificantes, 34 equipes transplantadoras de órgãos, 72 equipes transplantadoras de tecidos e cerca de 700 profissionais especializados.

Assim, Maringá integra diretamente uma rede estadual responsável por transformar a identificação de um potencial doador em um processo seguro de captação e transplante.

Paraná realizou 2.255 transplantes em 2025

Os resultados dessa estrutura aparecem também no número de procedimentos.

Segundo dados do Registro Brasileiro de Transplantes referentes a 2025, divulgados pela Secretaria da Saúde, o Paraná realizou 2.255 transplantes de órgãos e tecidos.

Foram:

  • 1.066 transplantes de córnea
  • 460 transplantes de rim
  • 405 transplantes de medula
  • 293 transplantes de fígado
  • 31 transplantes de coração

Apesar do volume, milhares de pessoas continuam aguardando um órgão ou tecido compatível.

Por isso, aumentar a identificação de potenciais doadores e reduzir a recusa familiar permanecem entre os principais desafios do sistema.

Quero ser doador. Preciso fazer algum documento?

Para a doação de órgãos após a morte, a principal orientação é simples: converse com sua família e deixe claro que deseja ser doador.

Isso ocorre porque, no Brasil, a doação após a morte depende da autorização familiar.

Portanto, mesmo que uma pessoa tenha manifestado anteriormente o desejo de doar, a família participa da decisão após a morte.

Por outro lado, os familiares também podem autorizar a doação quando a pessoa nunca declarou formalmente essa intenção, desde que existam condições médicas para o procedimento.

Assim, conversar sobre o assunto antecipadamente pode ajudar a família a tomar uma decisão em um momento marcado pelo luto.

Quem autoriza a doação depois da morte?

Depois da confirmação da morte e da identificação de um possível doador, profissionais especializados avaliam as condições clínicas e conversam com os familiares.

Durante essa etapa, a equipe explica como funciona o processo e apresenta a possibilidade de doação.

Entretanto, a captação dos órgãos depende da autorização familiar.

Segundo o Sistema Estadual de Transplantes, a conversa pode envolver familiares próximos, como cônjuge, pais, filhos ou irmãos maiores de idade, conforme as regras aplicáveis ao processo.

Por isso, uma das principais mensagens do Setembro Verde é justamente esta: quem deseja ser doador precisa conversar sobre essa vontade com a família.

Morte encefálica não é coma

Outro objetivo da campanha é esclarecer dúvidas sobre a morte encefálica.

A morte encefálica corresponde à perda completa e irreversível das funções do encéfalo. O diagnóstico segue critérios médicos específicos.

Portanto, morte encefálica não significa coma.

Depois da confirmação e do cumprimento dos critérios necessários, pode existir a possibilidade de doação de múltiplos órgãos e tecidos.

Já em determinadas situações de morte por parada cardiorrespiratória, alguns tecidos, como as córneas, também podem ser doados, desde que o potencial doador atenda aos critérios necessários.

Além disso, nem toda pessoa que deseja doar necessariamente se tornará uma doadora. As circunstâncias da morte e as condições clínicas determinam quais órgãos ou tecidos poderão ser utilizados.

Como funciona o caminho entre doador e receptor?

O processo envolve diferentes etapas e precisa ocorrer rapidamente.

Primeiro, os hospitais notificam pacientes com possível diagnóstico de morte encefálica à Central Estadual de Transplantes.

Em seguida, as equipes especializadas acompanham o processo necessário para confirmar o diagnóstico.

Depois da confirmação, profissionais capacitados realizam a entrevista com os familiares.

Caso a família autorize a doação, a equipe médica avalia a viabilidade clínica do potencial doador.

Posteriormente, começa a análise de compatibilidade entre doador e possíveis receptores.

Por fim, quando existe compatibilidade, o sistema organiza a logística de captação e transporte.

No Paraná, essa estrutura inclui transporte terrestre e aéreo para deslocar órgãos e equipes médicas dentro dos períodos necessários para o transplante.

Quem recebe os órgãos?

A família do doador não escolhe quem receberá os órgãos.

Os pacientes fazem parte de uma lista de espera fiscalizada pelo Sistema Nacional de Transplantes, do Ministério da Saúde, em conjunto com as centrais estaduais.

Além disso, a seleção não depende simplesmente da ordem de inscrição.

Entre os critérios considerados estão gravidade da doença, tempo de espera, tipo sanguíneo, compatibilidade anatômica e outras condições médicas.

Dessa maneira, o sistema procura direcionar cada órgão para um receptor compatível dentro dos critérios estabelecidos.

Uma doação pode beneficiar diferentes pacientes

Um único processo de doação também pode beneficiar mais de uma pessoa.

Dependendo das condições clínicas, diferentes órgãos e tecidos podem seguir para receptores distintos.

Entre as possibilidades estão coração, pulmões, fígado, rins e pâncreas, além de tecidos, como as córneas.

Por isso, uma autorização familiar pode representar uma nova oportunidade para diferentes pacientes que aguardam na fila.

Câmara também iniciou ações do Setembro Verde

Enquanto o HUM abriu a programação hospitalar, a Câmara Municipal de Maringá também promoveu nesta terça-feira (1º) uma ação de conscientização sobre doação de órgãos e tecidos.

O presidente da ONG Vidas Gerando Vidas, Claudemir Aparecido Ferreira, participou da sessão ordinária a convite da presidente da Câmara, Majô Capdeboscq.

Durante a atividade, a campanha reforçou a importância de ampliar o diálogo com a população e, principalmente, com as famílias.

Além disso, um depoimento apresentado durante a sessão mostrou o impacto humano da decisão.

Uma mãe que perdeu o filho após um acidente de trânsito em Maringá relatou a experiência de autorizar a doação dos órgãos. Dessa maneira, a história ajudou a mostrar como uma decisão tomada durante o luto pode representar esperança para outras famílias.

Câmara terá ação de sangue e medula em 10 de setembro

A mobilização continuará durante o mês.

No dia 10 de setembro, a Câmara deverá receber um ônibus para uma ação envolvendo doação de sangue e cadastro de doadores de medula óssea.

Embora doação de sangue, cadastro de medula e doação de órgãos sejam procedimentos diferentes, as iniciativas compartilham o objetivo de ampliar a conscientização sobre ações capazes de ajudar pacientes.

Já no Hospital Universitário, a programação continuará até o final de setembro.

Setembro Verde tem data nacional em 27 de setembro

A mobilização ganha ainda mais força no dia 27 de setembro, data instituída como Dia Nacional da Doação de Órgãos pela Lei Federal nº 11.584/2007.

Durante o mês, hospitais, governos e entidades promovem campanhas para explicar o processo e estimular as famílias a conversarem sobre o assunto.

No Paraná, além disso, a legislação estadual instituiu o Setembro Vermelho para ações de esclarecimento e incentivo à doação de órgãos e tecidos.

Assim, setembro concentra diferentes iniciativas voltadas à conscientização e ao aumento das doações.

A conversa pode começar antes da emergência

Os números ajudam a explicar por que o diálogo familiar aparece no centro da campanha.

O Paraná possui uma das maiores taxas de doadores do país e mantém uma das menores taxas de recusa familiar. Ainda assim, milhares de pessoas continuam aguardando transplantes.

Ao mesmo tempo, Maringá integra diretamente a estrutura estadual de procura de órgãos e o HUM participa do trabalho de identificação, acolhimento e conscientização.

Por isso, a principal mensagem do Setembro Verde não precisa esperar uma situação de emergência.

Quem deseja doar órgãos pode começar agora: conversando com a família e deixando clara essa decisão.

Fontes: Universidade Estadual de Maringá (UEM), Secretaria de Estado da Saúde do Paraná, Sistema Estadual de Transplantes e Câmara Municipal de Maringá.

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