Fabricada pela Baldwin em 1941, locomotiva puxou o primeiro trem de passageiros na inauguração da estação em 1954, voltou a Maringá em 1972 e precisou de trilhos provisórios para chegar ao Parque do Ingá
MARINGÁ — Era domingo, 31 de janeiro de 1954. Sob chuva, uma multidão aguardava um acontecimento que mudaria definitivamente a relação de Maringá com o restante do país.
Dos trilhos surgiu uma locomotiva a vapor.
À frente do trem que marcaria a inauguração da Estação Ferroviária estava a máquina de prefixo 608, que décadas mais tarde ficaria popularmente conhecida como Maria Fumaça de Maringá.
Na cabine seguia o maquinista José Mariano. Embora a estação ainda estivesse em obras, comerciantes, agricultores e lideranças locais pressionavam havia anos pelo início da operação ferroviária.
Depois daquele dia histórico, a máquina continuou em serviço. Quase 19 anos mais tarde, porém, voltaria a Maringá para nunca mais partir.
Hoje, milhares de pessoas que entram no Parque do Ingá encontram aquela mesma locomotiva protegida sob uma cobertura.
Entretanto, a história da nº 608 é muito maior do que o monumento que atravessou gerações de maringaenses.
Além de participar de um dos acontecimentos mais simbólicos do desenvolvimento da cidade, a máquina trabalhou posteriormente em Santa Catarina. Quando retornou, exigiu uma operação incomum: trilhos precisaram ser instalados provisoriamente pelas avenidas para conduzi-la até o Parque do Ingá.
Durante a preparação desta reportagem, o Maringá PR Notícias também encontrou uma pergunta que os documentos consultados ainda não permitiram responder definitivamente:
quem era essa locomotiva antes de se tornar a 608?
🚂 A Maria Fumaça de Maringá já tinha 13 anos quando chegou à cidade
Um documento produzido quase duas décadas depois da inauguração ferroviária preservou informações fundamentais sobre a máquina.
No termo de entrega assinado em 26 de dezembro de 1972, quando a Rede Ferroviária Federal S/A (RFFSA) transferiu a locomotiva para a Prefeitura de Maringá, ela foi descrita como uma máquina a vapor Baldwin, tipo Mikado, classificação 2-8-2, fabricada em 1941 e identificada pelo prefixo 608.
Além disso, o documento relacionava o tender e diversos equipamentos que acompanhavam a locomotiva.
Portanto, quando protagonizou a chegada ferroviária de janeiro de 1954, a máquina já tinha aproximadamente 13 anos de existência.
Registros técnicos disponíveis também atribuem à locomotiva o número de fabricação 64145, da Baldwin Locomotive Works, histórica fabricante norte-americana sediada na Filadélfia.
➡️ Veja o termo de entrega da locomotiva 608 e o registro histórico de seu retorno a Maringá

Fonte da imagem: Maringá Histórica — Locomotiva 608 (Maria Fumaça), 1954
🚉 31 de janeiro de 1954: a 608 entra para a história de Maringá
A chegada do trem era aguardada havia anos.
Naquele período, Maringá crescia rapidamente, impulsionada pela agricultura, pelo comércio e pela ocupação do Norte do Paraná. Apesar disso, o transporte da produção regional ainda representava um desafio.
Antes da ligação ferroviária, parte das mercadorias precisava seguir até Apucarana para, então, ser transportada por trem para outras regiões, inclusive em direção ao porto de Santos.
Por isso, comerciantes, agricultores e entidades locais pressionavam pela conclusão da ferrovia.
Quando o trem finalmente chegou, o prédio da estação ainda estava em obras. Mesmo assim, naquele domingo chuvoso, a nº 608 entrou em Maringá procedente de Curitiba e conduzida por José Mariano.
Aquele momento se transformou em um dos acontecimentos mais importantes da história econômica e social da jovem cidade.
➡️ Veja imagens da Estação Ferroviária ainda inacabada em 31 de janeiro de 1954
Mais do que transportar passageiros, os trilhos criavam uma nova possibilidade para o escoamento da produção agrícola, para a chegada de mercadorias e para a integração de Maringá a uma rede econômica muito maior.
Assim, a locomotiva 608 se transformava definitivamente em personagem da história local.
🛤️ A ferrovia ajudou a transformar Maringá
A trajetória da 608 não pode ser separada da expansão ferroviária pelo Norte do Paraná.
Os trilhos facilitaram o transporte de café, madeira, cereais, mercadorias e passageiros. Ao mesmo tempo, aproximaram economicamente cidades recém-formadas dos grandes centros.
Em Maringá, portanto, ferrovia e desenvolvimento urbano ficaram profundamente ligados.
Décadas depois, entretanto, o transporte ferroviário de passageiros perdeu espaço. A antiga estação desapareceu e a região ferroviária passou por uma transformação radical relacionada à implantação do Novo Centro.
O Maringá PR Notícias reconstruiu essa trajetória em outra reportagem especial, incluindo documentos sobre a retirada dos trilhos, os terrenos ferroviários e as mudanças urbanas posteriores.
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Com o passar do tempo, a antiga estação desapareceu. A locomotiva que marcou sua inauguração, porém, teve destino diferente.
Ela sobreviveu.
🚂 A 608 foi parar em Santa Catarina
Depois de sua passagem histórica por Maringá, a locomotiva continuou em operação.
No início da década de 1970, prestava serviços na região de Mafra, em Santa Catarina. Foi justamente ali que ocorreu um encontro decisivo para seu futuro.
Segundo registros históricos, o então prefeito de Maringá, Adriano José Valente, encontrou a locomotiva durante uma passagem pela região.
Ao reconhecer a máquina relacionada à inauguração da estação de Maringá, solicitou à Rede Ferroviária Federal sua doação ao município.
O pedido acabou sendo atendido. Com isso, quase duas décadas depois da chegada de 1954, a 608 iniciaria sua viagem de volta.
📅 26 de dezembro de 1972: a Maria Fumaça retorna a Maringá
A data está preservada documentalmente.
Em 26 de dezembro de 1972, a locomotiva nº 608 retornou ao pátio da Estação Ferroviária de Maringá.
Desta vez, não trazia passageiros. Era, na prática, sua última viagem ferroviária até a cidade.
Naquele mesmo dia, o engenheiro João Antonio Calvo, representando a Rede Ferroviária Federal, e o prefeito Adriano José Valente, representando o município, formalizaram a entrega da locomotiva.
O termo preservou algumas das informações técnicas mais importantes conhecidas atualmente sobre a máquina.
Além disso, a 608 retornava restaurada e acompanhada de seu tender e acessórios.
Logo surgiu, porém, um novo problema: a máquina estava no pátio ferroviário, enquanto seu destino definitivo seria o Parque do Ingá.
Como transportar uma locomotiva daquele porte até um parque que não possuía ligação ferroviária?

Fonte da imagem: Paraná Histórica — Transporte da Locomotiva 608, 1973
🛤️ Maringá ganhou trilhos provisórios pelas avenidas
A solução produziu uma das operações mais curiosas da história urbana de Maringá.
Registros históricos situam o trabalho em janeiro de 1973.
Para chegar ao Parque do Ingá, a locomotiva precisou deixar o antigo pátio de manobras, próximo à Avenida Tamandaré. Por isso, foram instalados trilhos provisórios.
À medida que a máquina avançava, as equipes reorganizavam a estrutura para permitir a continuação do percurso.
O trajeto passou pelas avenidas Tamandaré e São Paulo. Além disso, um trator auxiliou no deslocamento.
➡️ Veja outro registro da operação que levou a 608 ao Parque do Ingá
Por alguns momentos, portanto, vias que progressivamente passavam a pertencer aos automóveis receberam novamente trilhos.
Dessa vez, no entanto, eles não serviam para implantar uma nova ferrovia, mas para transportar uma única locomotiva até o lugar onde permaneceria preservada.
Relatos históricos atribuem a coordenação do trabalho a Silvio Alves Moura, um dos primeiros funcionários da Prefeitura de Maringá.
Ao entrar finalmente no Parque do Ingá, a 608 deixou de ser apenas equipamento ferroviário.
A partir dali, começava sua segunda vida: a de patrimônio histórico.
🌳 De locomotiva a patrimônio histórico
O Parque do Ingá havia sido inaugurado em 1971.
Com a chegada da 608, a máquina rapidamente passou a integrar a paisagem do local. Nos primeiros anos, entretanto, permaneceu exposta às condições climáticas.

Fonte da imagem: Maringá Histórica — Maria Fumaça no Parque do Ingá, 1975
Na primeira metade dos anos 1980, a deterioração provocada pela exposição da máquina já despertava preocupação.
Por isso, em agosto de 1984, foi inaugurada a estrutura conhecida como Estação Ferroviária dos Pioneiros, destinada a proteger a locomotiva. Naquele período, a 608 também recebeu um primeiro processo de restauração.
Décadas depois, entre 2018 e 2019, tanto a estrutura quanto a locomotiva voltaram a receber intervenções.
Em 2021, por sua vez, o Decreto Municipal nº 822 determinou o tombamento definitivo da Maria Fumaça e da estrutura que a abriga. Com isso, intervenções físicas passaram a depender da avaliação do órgão municipal responsável pela preservação do patrimônio histórico.
Mais recentemente, em 2026, a Prefeitura inaugurou nas proximidades o Espaço de Integração e Valorização da Maria Fumaça — Locomotiva nº 608, reforçando a permanência da máquina no Parque do Ingá.
A história completa do parque e das transformações ocorridas ao longo de mais de cinco décadas também integra a série Você Conhece Maringá?.
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🔎 A investigação: quem era a 608 antes de ser a 608?
Durante a preparação desta reportagem, o Maringá PR Notícias decidiu avançar sobre um trecho menos conhecido da trajetória da locomotiva: sua vida antes de 1954.
Foi nesse ponto que surgiu uma pergunta ainda sem resposta documental definitiva.
Registros técnicos identificam a locomotiva preservada em Maringá como uma Baldwin nº de fabricação 64145, construída em 1941, com configuração 2-8-2.
Naquele mesmo período, a Companhia Ferroviária São Paulo-Paraná, responsável por parte importante da expansão ferroviária pelo Norte do Paraná, também operava locomotivas Baldwin.
Durante a investigação, por exemplo, foi localizada no arquivo da Purdue University, nos Estados Unidos, uma coleção que preserva fotografias especificamente das locomotivas nº 26 e nº 27 da São Paulo-Paraná.
Além disso, outros registros pesquisados durante o levantamento associam a nº 27 a uma Baldwin construída em 1941 e de numeração de fábrica muito próxima daquela atribuída à 608.
Essa proximidade levantou uma hipótese histórica:
a futura 608 poderia ter integrado originalmente o material ferroviário da São Paulo-Paraná antes de receber a numeração pela qual ficou conhecida?
Até agora, entretanto, a resposta continua sendo:
não sabemos.
⚠️ Onde termina o documento e começa a hipótese
A investigação rastreou registros ferroviários brasileiros e estrangeiros, arquivos da Baldwin, fotografias, documentação sobre a Companhia Ferroviária São Paulo-Paraná e materiais relacionados à Rede de Viação Paraná-Santa Catarina.
Apesar das conexões encontradas, não foi localizado um registro primário que permita identificar inequivocamente qual era o número operacional da Baldwin 64145 antes do prefixo 608.
Por esse motivo, o Maringá PR Notícias não apresenta nenhuma identidade anterior da locomotiva como fato.
O que sabemos
✔ Documentos identificam a locomotiva preservada em Maringá como uma Baldwin, tipo Mikado 2-8-2, fabricada em 1941.
✔ Posteriormente, a máquina aparece documentada com o prefixo 608.
✔ Além disso, registros técnicos atribuem à locomotiva o número de fabricação Baldwin 64145.
✔ Já a São Paulo-Paraná possuía locomotivas numeradas pelo menos até 27, enquanto arquivos norte-americanos preservam fotografias das máquinas 26 e 27.
O que ainda não sabemos
? Ainda não foi identificado documentalmente o primeiro número operacional da Baldwin 64145.
? Também permanece sem comprovação uma eventual passagem da máquina pela Companhia Ferroviária São Paulo-Paraná.
? Da mesma forma, não foi localizado o documento que indique quando ela recebeu o prefixo 608.
Portanto, até que apareça um registro de fábrica, inventário de material rodante ou documento oficial de renumeração que faça essa ligação, qualquer resposta além disso permanecerá como hipótese.

Fonte da imagem: Paraná Histórica — O avanço dos trilhos ferroviários, anos 1940
📸 Outra fotografia deixa uma pergunta ainda mais intrigante
A imagem acima adiciona um novo capítulo à história.
Nela, trabalhadores aparecem instalando dormentes e trilhos em algum ponto de Maringá no final da década de 1940. Ao lado da equipe, uma locomotiva dava suporte à obra.
Portanto, uma máquina ferroviária circulou pela área de Maringá antes da inauguração oficial da estação em 1954.
A própria pesquisa histórica que preserva a fotografia ressalta, contudo, que ainda é necessário identificar o prefixo daquela locomotiva.
➡️ Veja o registro completo do avanço dos trilhos em Maringá nos anos 1940
Diante disso, surge outra pergunta:
a futura 608 já teria passado por Maringá antes do histórico 31 de janeiro de 1954?
Até o momento, não há documentação suficiente para afirmar.
Justamente por isso, a fotografia permanece como uma das peças mais intrigantes dessa história.
🚂 Uma máquina, duas chegadas e mais de oito décadas de história
Há algo singular na trajetória da nº 608.
Na primeira vez em que chegou oficialmente a Maringá, a locomotiva representava modernidade. Naquele momento, significava transporte, comércio, produção agrícola, circulação de pessoas e ligação com outras regiões.
Quando voltou, em dezembro de 1972, entretanto, seu papel havia mudado completamente.
Já não retornava para trabalhar. Em vez disso, voltava para representar aquilo que havia ajudado a construir.
Ao atravessar a cidade sobre trilhos provisórios rumo ao Parque do Ingá, a locomotiva também cruzava simbolicamente uma fronteira:
de equipamento ferroviário para patrimônio histórico.
Mais de oito décadas depois de sua fabricação e mais de sete décadas depois daquele domingo chuvoso de janeiro de 1954, a Maria Fumaça de Maringá continua na cidade.
Além disso, existe uma diferença fundamental entre ela e uma simples homenagem à antiga ferrovia.
A máquina preservada no Parque do Ingá não é uma réplica.
Trata-se da locomotiva nº 608 ligada à inauguração da Estação Ferroviária de Maringá.
Com o passar do tempo, a estação desapareceu, os trilhos deixaram o centro e a cidade cresceu sobre parte daquele território.
A 608, porém, permaneceu.
📣 Você possui fotografias ou documentos sobre a locomotiva 608?
Embora esta reportagem reúna diferentes documentos e registros históricos, a investigação continua aberta a novas evidências.
Quem possuir fotografias antigas da locomotiva, documentos ferroviários, registros da Companhia Ferroviária São Paulo-Paraná ou da RVPSC, imagens da operação que levou a máquina ao Parque do Ingá ou informações de antigos ferroviários pode entrar em contato com a redação do Maringá PR Notícias.
Afinal, um documento guardado há décadas por uma família pode conter justamente a peça que falta para reconstruir os primeiros anos da locomotiva.
📌 Você Conhece Maringá?
Esta reportagem integra a série Você Conhece Maringá?, do Maringá PR Notícias, dedicada a recuperar personagens, lugares, documentos e acontecimentos que ajudam a explicar como a cidade foi construída.
➡️ Veja todas as reportagens da série Você Conhece Maringá?
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➡️ Você Conhece Maringá? Como o Parque do Ingá se tornou um dos símbolos da cidade
📚 Fontes da reportagem
- Maringá Histórica — Locomotiva 608 (Maria Fumaça), 1954 — registros sobre a locomotiva nº 608 e sua participação na inauguração ferroviária de Maringá.
- Maringá Histórica / Paraná Histórica — A 608 voltou, dezembro de 1972 — registro do retorno da locomotiva e do termo de entrega e doação pela Rede Ferroviária Federal à Prefeitura de Maringá.
- Paraná Histórica — Transporte da Locomotiva 608, 1973 — registros da operação com trilhos provisórios até o Parque do Ingá.
- Maringá Histórica — Maria Fumaça no Parque do Ingá, 1975 — registro da locomotiva antes da construção da estrutura permanente de proteção.
- Paraná Histórica — Estação Ferroviária ainda em obras, 1954 — documentação visual e histórica da chegada ferroviária de 31 de janeiro de 1954.
- Paraná Histórica — O avanço dos trilhos ferroviários, anos 1940 — fotografia dos trabalhos ferroviários anteriores à inauguração da estação.
- Purdue University Archives and Special Collections — William A. Swartz Collection — arquivo com fotografias das locomotivas nº 26 e nº 27 da Companhia Ferroviária São Paulo-Paraná.
- Decreto Municipal nº 822/2021 — Município de Maringá — documento relacionado ao tombamento da Maria Fumaça e da estrutura que a abriga.
- Gerência de Patrimônio Histórico de Maringá — registros e documentação patrimonial relacionados à Locomotiva nº 608.
- Maringá PR Notícias — Você Conhece Maringá? A ferrovia que ajudou a construir a cidade e a terra dos trilhos que financiou o Novo Centro — reportagem própria utilizada no cruzamento da história ferroviária e da transformação urbana da área central.
Redação Maringá PR Notícias
Pesquisa histórica e levantamento documental: Maringá PR Notícias.
